Quarta-feira, 30 de Junho de 2004

O OLEIRO E O POETA

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Há muito tempo, na cidade de Zahlé, ocorreu uma rixa entre um jovem poeta, de nome
Fauzi, e um oleiro, chamado Nagib.
Para evitar que o tumulto se agravasse, eles foram levados à presença do juiz do
lugarejo.
O juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou primeiramente o oleiro, que parecia
muito exaltado.
"Disseram-me que você foi agredido? Isso é verdade?"
"Sim, senhor juiz." - confirmou o oleiro - "fui agredido na minha própria casa por
este poeta. Eu estava, como de costume, a trabalhar na minha oficina, quando ouvi
um ruído e a seguir um baque.
Quando fui à janela constatei que o poeta Fauzi tinha atirado com violência
uma pedra, que partiu um dos vasos que estava a secar perto da porta.
Exijo uma indenização!" - gritava o oleiro.
O juiz voltou-se para o poeta e perguntou-lhe serenamente: "Como justifica o seu
estranho proceder?"
"Senhor juiz, o caso é simples." - disse o poeta.
"Há três dias eu passava em frente da casa do oleiro Nagib, quando percebi que
ele declamava um dos meus poemas. Notei com tristeza que os versos estavam errados.
Meus poemas eram mutilados pelo oleiro.
Aproximei-me dele e ensinei-lhe a declamá-los da forma certa, o que ele fez sem
grande dificuldade.
No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar e ouvi novamente o oleiro a repetir os
mesmos versos de forma errada.
Cheio de paciência tornei a ensinar-lhe a maneira correcta e pedi-lhe que não
tornasse a deturpá-los.
Hoje, finalmente, eu regressava do trabalho quando, ao passar diante da casa do
oleiro, percebi que ele declamava a minha poesia estropiando as rimas e mutilando
vergonhosamente os versos.
Não me contive.
Apanhei uma pedra e parti com ela um dos seus vasos.
Como vê, o meu comportamento nada mais é do que uma represália pela conduta do oleiro."
Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz dirigiu-se ao oleiro e declarou: "que esse
caso, Nagib, sirva de lição para o futuro. Procure respeitar as obras alheias afim
de que os outros artistas respeitem as suas.
Se você equivocamente se julgava no direito de quebrar o verso do poeta, achou-se
também o poeta egoisticamente no direito de quebrar o seu vaso." E a sentença foi a
seguinte: "determino que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e
cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um de seus lindos versos. Esse
vaso será vendido em leilão e a importância obtida pela venda deverá ser dividida
em partes iguais entre ambos."
A notícia sobre a forma inesperada como o sábio juiz resolveu a disputa espalhou-se
rapidamente.
Foram vendidos muitos vasos feitos por Nagib adornados com os versos do poeta. Em
pouco tempo Nagib e Fauzi prosperaram muito. Tornaram-se amigos e cada qual passou
a respeitar e a admirar o trabalho do outro.
O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta, enquanto o poeta
encantava-se com os vasos admiráveis do oleiro.

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Cada ser tem uma função específica a desenvolver perante a sociedade. Por isso, há
grande diversidade de aptidões e de talentos.
Respeitar o trabalho e a capacidade de cada um possibilita-nos aprender sobre o que
não conhecemos e aprimorar as nossas próprias actividades. Respeito e colaboração são
ferramentas valiosas para o desenvolvimento individual e colectivo.

Baseado no livro "O livro de Aladim", de Malba Tahan, páginas 50 e 53, Editora
Record, 2001.

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publicado por linade às 18:31
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