Terça-feira, 15 de Junho de 2004

PASSAGENS DO ÚLTIMO LIVRO QUE LI

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Agarra-me pelos cabelos e arrasta-me pelo chão até à cozinha. Bate-me enquanto estou de joelhos, puxa-me pela trança como se a quisesse arrancar e cort-a com as enormes tesouras da tosquia. (...) com o cinto ou com a bengala, creio que éramos espancadas todos os dias. Um dia sem pancada não era normal.

(...) A lei dos homens era assim naquela aldeia. As raparigas e as mulheres eram com toda a certeza espancadas todos os dias nas outras casas. Ouvíamos gritos aqui e ali, por isso era normal ser espancada, ter os cabelos rapados e ficar presa a uma estaca no estábulo. Não havia outra forma de vida.

Em nossa casa as crianças nascem com um ano de intervalo, a minha mãe casou aos catorze anoso meu pai era muito mais velho do que ela. Ela teve muitos filhos. Catorze no total. Sobreviveram cinco. (...) Onde estavam os outros? (...) Vejo a minha mãe deitada no chão em cima de uma pele de carneiro. Está a parir e a minha tia Salema está ao pé dela, sentada numa almofada. Ouço os gritos, os da minha mãe e os do bebé e de repente a minha mãe pega na pele de carneiro e sufoca o bebé. Ela está de joelhos, vejo o bebé agitar-se debaixo da coberta e depois acabou-se. Não sei o que se passa em seguida, já não há bebé, é só isso, e um medo terrível entorpece-me.
Era uma menina que a minha mãe sufocava à nascença. Vi-a fazê-lo uma primeira vez, depois uma segunda vez, não tenho a certeza de ter assistido à terceira, mas soube. Também ouço a minha irmã mais velha, Noura, dizer à minha mãe: “Se eu tiver filhas, faço como tu...”.

(...) Na minha aldeia, enquanto se vive em casa dos pais, o medo da morte está sempre permanente.(...) Na minha aldeia, se os homens tivessem de escolher entre uma rapariga e uma vaca escolhiam a vaca. O meu pai não se cansava de repetir que nós não servíamos para nada:” Uma vaca dá leite e vitelos. O que é que se faz com o leite e os vitelos? Vendem-se. Traz-se dinheiro para casa, o que significa que uma vaca presta serviço à família. E uma rapariga? Que serviços é que presta à família? Nenhum.

(...) Tenho medo que Faiez queira algo mais do que um beijo e ao mesmo tempo desejo-o sem saber verdadeiramente o que me espera. Receio repeli-lo se ele quiser ir demasiado longe e que ele se zangue. Também confio nele porque sabe muito bem que não posso permitir que me toquem antes de casar. Sabe perfeitamente que não sou uma charmuta. E prometeu casar comigo. Mas apesar disso tenho medo. Ali sozinha no prado com o rebanho. (...) sentamo-nos no chão e ele beija-me. Pousa-me a mão na coxa mas eu não deixo. Zanga-se. Tem uma expressão cruel quando me olha nos olhos.
- Porque é que não queres? Deixa!
Tenho tanto medo que ele se vá embora, que vá procurar outra...Pode fazê-lo quando quiser, é um belo homem, o meu futuro marido. Amo-o, não queria ceder, tenho muito medo, mas mais medo ainda de o perder. É a minha única esperança. E então deixo que ele faça sem saber o que me vai acontecer e até onde é que ele irá. (...) Deita-me na erva e faz o que quer. Já não digo nada, não faço um gesto para o afastar. (...) Sou virgem, não sei nada do amor entre um homem e uma mulher, ninguém me explicou. A mulher deve sangrar, com o marido, foi tudo o que aprendi desde a infância. Ele faz o que quer em silêncio, até eu sangrar, e fica com uma expressão perplexa como se não esperasse (...) não compreendi naquele momento que ele estava orgulhoso de si. Só muito mais tarde é que lhe quis mal por ter duvidado da minha honra, por se ter aproveitado de mim quando sabia perfeitamente o que eu estava a arriscar. (...)Naquele momento, a minha história de amor durava há uma quinzena de dias, o tempo de três encontros no prado onde pastavam os carneiros. (...)
- Faiez, a primeira vez eu não queria nada, depois tu beijaste-me e aceitei três vezes e até hoje não voltei a ter o período.
- Talvez haja um atraso.
(...)Perdi a esperança. Acabou-se. Ele abandonou-me. Chego a casa. O carro dele não está lá. Levanto-me no dia seguinte de manhã e continuo a não avistar o carro.
É realmente o fim. Já não me resta qualquer esperança de viver e percebi. Aproveitou-se de mim, foi um momento agradável para ele. Mas para mim não.
(...)Devo estar no quinto mês. Senti mexer no ventre e, em pé, atiro-me contra a esquina de um muro, como louca. Já não posso mentir mais nem esconder a barriga e o peito, não tenho outra saída.
(...) As semanas vão passando. Ninguém me interroga, ninguém quer saber quem me fez isto, como e porquê. A culpa é minha e não dele. Um homem que rouba a virgindade a uma mulher não é culpado, foi ela que quis. Pior ainda, foi ela que pediu! Foi ela que provocou o homem, porque é uma puta desavergonhada. Não tenho nada para me defender. A minha ingenuidade, o meu amor por ele, a sua promessa de casamento, até mesmo o seu primeiro pedido feito ao meu pai, nada disso conta.
(...)Uma noite houve outra reunião de família: os meus pais, a minha irmã mais velha e o seu marido Hussein. (...) Ouço a minha mãe de novo:
- Deves tratar dela, mas tens que te desembaraçar rapidamente.
(...) Ouvi com os meus ouvidos a minha condenação à morte e fugi para a escada porque a minha irmã preparava-se para sair.
(...) De repente senti uma coisa fria escorrer-me pela cabeça. E de súbito o fogo envolveu-me. (...) Na minha mente continuo a correr envolta em chamas.
Vou morrer. Não importa. Talvez já esteja morta. Finalmente acabou-se.
Estou numa cama de hospital, recurvada, como o cão da es espingarda, por baixo de um lençol.
(...) Ninguém me quer tocar, não se preocupam comigo, não me dão de comer nem de beber, esperam que eu morra.
(...) Nunca mais voltei a ver a minha família. A minha derradeira visão da minha mãe é essa imagem do copo com água envenenada. A do meu pai a golpear furioso o chão com a bengala. E a do meu irmão com o saco de fruta.

(...)Um dia, alguém entrou no meu quarto no meio desse pesadelo. Adivinhei mais a sua presença do que a vi. Uma mão de mulher passou como uma sombra sobre o meu rosto, sem o tocar. Uma voz de mulher com um sotaque engraçado disse-me, em árabe:
- Vou ajudar-te...Tem confiança, vou-te ajudar, estás a ouvir-me?
(...) Não conheci nenhuma mulher queimada como eu porque não sobrevivem. E continuo a esconder-me, não posso dizer o meu verdadeiro nome, mostrar o meu rosto. Só posso falar, é a única arma que me resta.(...)

Um dia , Jacquelina falou comigo.
- Podias prestar um favor a outras mulheres se fizésemos um livro sobre a tua vida.
- - Um livro? Mas eu mal sei escrever...
- - Mas sabes falar...
- Ignorava que se podia “falar” um livro.
(...)
Recebi uma carta do meu filho, com uma bela caligrafia arredondada. Queria incentivar-me a levar a cabo essa árdua tarefa. A sua carta fez-me chorar mais uma vez.


Mamã
Depois de todo este tempo em que vivi sozinho, sem ti, o ter-te reencontrado finalmente, apesar de tudo o que se passou, deu-me a esperança de uma vida nova. Penso em ti e na tua coragem. Obrgado por nos dares este livro. Ele dar-me-á, também a mim, coragem na vida. Amo-te, mamã.
Teu filho, Marouan.


Contei a minha vida pela primeira vez, fazendo um esforço para desenterrar da memória as coisas mais ocultas. (...) Espero que este livro viaje pelo mundo, que chegue até à Cisjordânia e que os homens não o queimem.

publicado por linade às 11:22
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