Segunda-feira, 14 de Junho de 2004

AINDA HÁ MULHERES QUE MORREM SÓ POR SEREM MULHERES!

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***************QUEIMADA VIVA" ***********Um testemunho comovente e aterrador

Todos os anos pelo menos 5.000 mulheres são assassinadas por terem traído a honra das suas famílias, aquilo a que se chama "crime de honra". Este livro relata o testemunho de uma sobrevivente, Souad, que estava condenada a morrer após ter sido decidido em reunião de família que deveria ser queimada viva com gasolina pelo seu cunhado. E tudo isto porque nasceu num povoado da Cisjordânia onde se conservavam os costumes ancestrais, e porque acreditou estar apaixonada e confiou nas promessas de um homem, e porque concebeu um filho sem estar casada. Esta fatalidade paga-se com a vida nesta aldeia, como ainda hoje acontece em muitas partes do mundo, porque é entendida como a desonra da família e do povo. Por isso, era preciso que a família se desembaraçasse de Souad, para lavar a honra da família e esta não ter de abandonar a aldeia. O seu cunhado foi escolhido para aplicar a sentença: ela deveria ser queimada viva: "De repente senti uma coisa fria escorrendo pela minha cabeça. E logo em seguida estava coberta pelo fogo." Souad salvou-se por milagre, graças à ajuda de Jacqueline que trabalhava na organização humanitária Terra dos Homens. Souad, a mulher coragem, decidiu escrever sobre a sua primeira vida, como ela diz, já que renasceu para uma segunda vida na Europa, e sobre todos aqueles que ameaçaram a sua vida para denunciar ao mundo a prática dessa barbárie e apelar contra o silêncio que cobre o sofrimento e a morte de muitos milhares de mulheres, em pleno século XXI. "Queimada Viva" é um testemunho arrepiante e comovente, capaz de lavar de lágrimas os mais empedernidos. É também um apelo a todos nós, para acabar com o silêncio criminoso que encobre a morte dessas mulheres, vítimas das leis dos homens.

Transcrevo aqui as primeiras páginas deste livro que sintetizam a sua problemática e todo o relato do passado e do presente desta mulher, na sua primeira e segunda vida.


"Sou uma rapariga, e uma rapariga deve caminhar depressa, com a cabeça inclinada para o chão, como se estivesse a contar os passos. Não deve erguer o olhar nem desviá-lo para a direita ou para a esquerda enquanto caminha, porque se os seus olhos se cruzarem com os de um homem toda a aldeia lhe chamará charmuta.
Se uma vizinha já casada, uma velha ou quem quer que seja a avistar sozinha numa ruela, sem estar acompanhada pela mãe ou pela irmã mais velha, sem as ovelhas, sem um molho de feno ou um carrego de figos, também lhe chamarão charmuta.
Uma rapariga tem de estar casada para poder olhar em frente, entrar na loja do comerciante, depilar-se ou usar jóias.
Quando uma rapariga ainda não casou, a partir dos catorze anos, como a minha mãe, a aldeia começa a troçar dela. Mas, para poder casar, uma rapariga tem de esperar pela sua vez na família. Primeiro a mais velha e depois as outras.
Há muitas raparigas na casa de meu pai. Quatro, todas em idade de casar. Há também duas meias-irmãs, filhas da segunda mulher do nosso pai. Ainda são crianças. O único homem da família, o filho adorado por todos, o nosso irmão Assad, nasceu, triunfalmente, no meio de todas estas raparigas. Foi o quarto. Eu sou a terceira.
O meu pai, Adnan, está desgostoso com a minha mãe, Leila, que lhe deu tantas filhas. Também está descontente com a outra esposa, Aicha, que só lhe deu raparigas.
Noura, a mais velha, casou tarde, quando eu tinha cerca de quinze anos. Kainat, a segunda rapariga, não é requestada por ninguém. Ouvi dizer que um homem falou em mim ao meu pai, mas tenho de aguardar o casamento de Kainat antes de poder pensar no meu. Talvez Kainat não seja suficientemente bonita ou seja demasiado lenta no trabalho...ignoro por que razão ninguém a quer, mas se ficar solteira, será objecto de troça da aldeia, tal como eu.
Não conheci folguedos nem prazeres tanto quanto a minha mente é capaz de se lembrar. Na minha aldeia nascer rapariga é uma maldição. O único sonho de liberdade é o casamento. Abandonar a casa do pai em troca da casa do marido e não voltar nunca mais, mesmo que se seja espancada. Quando uma rapariga casada regressa à casa do pai é uma infâmia. Não deve pedir protecção fora da sua própria casa e é dever da família levá-la de novo para o lar.
A minha irmã foi espancada pelo marido e arrastou consigo a vergonha ao vir queixar-se.
Ela tem sorte em ter um marido. Eu sonho com isso.
Desde que ouvi dizer que um homem falou de mim ao meu pai, a impaciência e a curiosidade devoram-me. Sei que o rapaz mora a três ou quatro passos da nossa casa. Às vezes avisto-o do alto do terraço onde estendo a roupa. Sei que tem carro, usa fato completo, anda sempre com uma pasta, deve trabalhar na cidade e ter uma boa profissão porque nunca anda vestido como um operário, mas sempre impecável. Gostava de ver a cara dele mais de perto, mas tenho sempre receio que a família me surpreenda a espreitar. Por isso, quando vou apanhar feno para um carneiro doente no estábulo, sigo num passo rápido pelo caminho na esperança de o ver de perto (...) Estou apaixonada por aquele homem e pelo carro! No meu terraço, imagino imensas coisas: que estou casada com ele e, tal como hoje, vejo o carro afastar-se até deixar de o ver, mas ele regressará do trabalho ao pôr-do-sol. Descalço-lhe os sapatos e, de joelhos, lavo-lhe os pés como a minha mãe faz ao meu pai. Trago-lhe chá, contemplo-o enquanto fuma o longo cachimbo, sentado como um rei diante da parta da sua casa. Sou uma mulher que tem um marido!
E posso até maquilhar-me, sair para ir à loja, entrar no carro com o meu marido e ir a cidade. Suportarei o pior só para ter a liberdade, por que tanto anseio, de transpor sozinha esta porta e ir comprar pão!
Nunca serei uma charmuta. Não olharei para os outros homens, continuarei a caminhar depressa, direita e orgulhosa mas sem contar os passos, de olhos baixos, e a aldeia não poderá dizer mal de mim porque estarei casada.
Foi no cimo desse terraço que começou a minha história terrível. Já era mais velha do que a minha irmã mais velha no dia do seu casamento, e continuava a esperar e a desesperar.
Devia ter dezoito anos ou talvez mais, não sei ao certo.
A minha memória desfez-se em fumo no dia em que o fogo se abateu sobre mim."


publicado por linade às 09:25
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