Segunda-feira, 24 de Maio de 2004

Vanitas vanitatum et omnia vanitas...



Por José Manuel Fernandes
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2003

"Ela estava linda. Levava um vestido justo com cauda em seda selvagem, com
um corpo de Ypres e mantilha de renda feita especialmente na Bélgica".

A descrição é de Augustus, um costureiro português que só para a boda da
filha do Presidente angolano vendeu 50 vestidos.

Ela chama-se Tchizé, tem 25 anos, e é a filha de José Eduardo dos Santos,
o presidente da República Popular de Angola. Mas a descrição não está completa. Tchizé, informava ontem o "24 Horas" levava na cabeça,
"claro está, uma coroa ornamentada com os cobiçados diamantes angolanos".
Diamantes que não faltaram na festa.
Como não faltaram lagostas, champanhe francês e carne argentina numa mesa
servida pelo Ritz de Lisboa.

E como também não faltou tudo o que os muitos dólares da elite angolana
pode comprar, tudo o que não tem pudor
de gastar numa celebração que durou três dias e envolveu 600 convidados.
Convidados endinheirados pois ofereceram, em leilão, 30 mil euros pela
liga da noiva e onze mil pelo laço do noivo.
A festa terminou na ilha de Mossulo e depois os noivos partiram para as
ilhas Maurícias, em lua-de-mel.

Lá, bem longe da imensa miséria de Luanda, dos seus bairros de lata a
perder de vista, das suas infraestruturas podres,
dos seus mercados onde se esmola a comida de cada dia. Lá, ainda mais
longe de um território dizimado por anos de
guerra, onde se morre de fome, onde se é estropiado por minas, onde se
vive sem esperança e sem alegria.

Tudo pago, naturalmente, por José Eduardo dos Santos. O Presidente. O
homem que preside a um regime cleptócrata
que pilha as imensas riquezas do país e as distribuiu pela numenklatura e
apaniguados. Pelos que estavam na festa.
Pelos que importam carros de luxo, têm os filhos a estudar na Europa e não
dispensam Rolex de ouro ou as criações
de Augustus, mesmo quando estas custam mais de 1800 euros.

Espectáculo tão triste e vergonhoso foi ainda pautado pela hipocrisia - a
noiva foi discretamente baptizada antes de casar,
por que, quando nasceu, o pai ainda tinha o discurso do afro-estalinismo -
e pela agressiva presença da segurança.
Já não com medo da Unita, por certo, mas dos deserdados de Luanda.

Entre os convidados estava, para vergonha de todos nós, o
primeiro-ministro Durão Barroso. Convidado como "amigo",
porque o casamento não era de Estado. E que aceitou ir a Luanda nessa
condição: "amigo" de um dos responsáveis
pela desgraça de Angola, um homem com demasiado sangue nas mãos e
demasiado dinheiro nos bolsos.

Nenhum interesse do Estado português, nenhum interesse português em
Angola, público ou privado, justifica a viagem de Durão
Barroso. E mesmo que interesses existissem e a viagem os promovessem, há
actos de vassalagem que não se praticam - actos de
vassalagem como o de aceitar o convite para uma festa de luxo e espanto
num país que passa a vida a mendigar ajuda internacional,
que nem sequer paga as suas dividas, designadamente a Portugal.

A viagem oficial de Durão Barroso a Angola já tinha decorrido num tom de
cordialidade inaceitável quando se lida com gente da
jaez de José Eduardo dos Santos. Esta sua viagem privada foi pior, porque
implicou cumplicidade com o espavento de uma festa
escandalosa. Para além de que, mesmo privada, a ida de um
primeiro-ministro ao casamento da filha de um Presidente, é sempre
um gesto político. Neste caso, um triste e lamentável gesto político.


É ESTE O MUNDO EM QUE VIVEMOS!

_________________________________________________________________
publicado por linade às 23:44
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1 comentário:
De T Boinas a 24 de Maio de 2004 às 23:53
ViVA o Durão BArroso!!!
OU ENTÃO NÃO!!
http://wordistramoco.blogs.sapo.pt


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