Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2004

CARTAS DE AMOR II

CARTA DE ALMEIDA GARRETT À VISCONDESSA DA LUZ

OUTRA vez te escrevo desta aborrecida casa do Tesouro, onde hoje faz um calor horrível_aqui está presente o cansado P. P. que também me não faz pouca calma _porém mais que tudo estes negócios financeiros, que são mortais para a minha paciência.

Recebi a tua adorada de 28. _ Estás menos mal comigo: inda bem! Oxalá que amanhã ou depois me não venham outras que espero, porque tenho reminiscência de que outras cartas muito feias te escrevi neste intervalo, quando me tomava a ânsia e o terror de te perder_ de te ver demorar muito a nossa separação. _ Enfim, já não faltam senão 30 dias provavelmente para te tornar a ver!
Sabes tu, minha Rosa, que faz hoje 3 meses justos que aqui, neste Tejo que agora estou vendo_ te separaste de mim?
Que disseste aquele último adeus mudo_ mas tão expressivo, que só eu vi, e que ficou para sempre gravado na minha alma? _ Estou-te vendo ainda agora, na mesma atitude, sentindo eu a mesma sensação… Oh! Mas como ela vai trocar-se em prazer, em alegria quando te vir voltar! _ Nem quero pensar nisso: faz-me mal, transtorna-me.
Querida, adorado amor da minha alma, não cuides que esqueço um momento das provas de amor que me dás_ não penses que o fiz nunca_ nem quando mais desvarios e loucuras te escrevi, porque_ mil vezes to repetirei_ eu tinha a cabeça perdida; e não me deves levar em conta o que em tal estado escrevi.
Antes de ontem houve ópera italiana em S. Carlos (que estava fechado) com uma companhia vinda do Porto: fui e pouco me diverti, mas gostei de estar ali contudo, vendo e contemplando os lugares onde te adorava, pintando-me a tua imagem em todas as atitudes em que ali me apareceste_ reproduzindo as cenas todas que ali passámos,
Oh, minha Rosa, sempre te amo muito._ É tanto, tanto o que te quero, que por isso mesmo às vezes sou injusto contigo, duvidando que seja possível amares-me tu tanto como eu te amo. Juro-te que esta é a verdade, não creio que ninguém amasse tanto como eu_ e até de ti_ de ti que me amas tanto, me parece às vezes que não pode ser tudo o que eu queria. É falso, é engano, sei que me amas muito, que me não amas menos que eu. Mas deves perdoar-me estas dúvidas às vezes_ e sobretudo entender bem o motivo que te não é ofensivo_ ao contrário.
E tu, meu bem, minha alma, meu amor, perdoa-me, releva todas estas inconsequências, não creias senão neste infinito amor que me abrasa por ti. Adeus, adeus.
Não posso mais hoje. Amanhã te escreverei uma longa carta..
Sabes que sou teu, e não saibas mais nada.

Teu, teu, só teu.

Mil B.

publicado por linade às 23:13
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