Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2004

CARTAS DE AMOR I

CARTAS DE AMOR DE ALMEIDA GARRETT À VISCONDESSA DA LUZ


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Terça-feira (1846)

Que suprema felicidade foi hoje a minha, querida desta alma! Como tu estavas linda , terna , amante , encantadora ! nunca te vi assim , nunca me pareceste tão bela . que deliciosa variedade há em ti , minha R. adorada ! Possuir-te é gozar de um tesouro infinito, inesgotável. Juro-te que já não tenho mérito em ti3e ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar até o último instante da minha vida: não tenho mérito algum nisso. Depois de ti toda a mulher é impossível para mim, que antes de ti não conheci nenhuma que me pudesse fixar.
E o que eu te estimo e aprecio além disso! A ternura de alma verdadeira que tenho por ti! Onde estavam no meu coração estes afectos que nunca senti, que tu só despertastes e que dão à minha alma um bem-estar tão suave? Realmente que te devo muito, que me fizeste melhor, outro do que nunca fui. O que sinto por ti é inexplicável. Bem me dizias tu que em te conhecendo te havia de adorar deveras. É certo, assim foi, e estou agora seguro deste amor, porque repousa em bases tão sólidas que já nada creio que o possa destruir. Deixaste-me hoje num estado de felicidade tal, com tanta serenidade no coração, que não creio em toda a minha vida que ainda tivesse um dia assim.
A minha imaginação tão exaltada, tão difícil, nunca foi além das doces realidades que tu me fazes experimentar. Tinha desesperado de encontrar a mulher que Deus formara à minha semelhança _ achei-a em ti, e já não desejo a vida senão para a gozar contigo e para me arrepender a teus pés do mal que fiz, do tempo que perdi, do que te roubei da minha existência para o mal empregar nas misérias de que me tenho querido ocupar .Digo _que me tenho querido, porque não consegui nunca: o meu espírito rebela-se, o meu coração ficava indiferente, e nunca foram de ninguém senão teus.
Não penses que exagero: por Deus te juro que assim é, e que me podes crer, eu a ninguém amei, a ninguém hei-de amar senão a ti. A ti a virgindade do meu coração, que não puderam desflorar nunca nem os erros dos sentidos, nem as decepções do espírito, ou as ilusões da vaidade. – E sou tão feliz em o conhecer que não imaginas: teria remorso verdadeiro se tivesse amado a alguém antes de ti; era uma quase infidelidade que me não poderia perdoar.
E sabes tu? Não sei se me engano, mas creio que não: estou persuadido que o mesmo passou por ti, e que a tua passada ilusão não foi senão ilusão que passou, e que este é o teu verdadeiro primeiro amor, em que alma, sentidos, coração, estima, afecto e entusiasmos estão reunidos, porque sem estas coisas tosas bem sabes que não pode haver amor real e verdadeiro.
Sou secante com este tema, bem o conheço. Mas que queres? Não posso ter outro: estou completamente estúpido para tudo o mais: sou como um instrumento em que todas as cordas quebraram menos uma – e que já não dá mais que um som em qualquer parte e por qualquer modo que o firam.
Sei que não receberás hoje esta carta, que não verei letras tuas tão pouco, e amanhã passará todo o dia do mesmo modo. Paciência! Hoje tenho de que viver na doce recordação daquelas duas horas ( bem escassas!) que me deste, e pelas quais – quanto mais não fosse, te abençoarei até o último instante de minha vida.

Adeus, adeus, minha vida. Adeus.



publicado por linade às 00:17
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